Santa Rosa do Purus, 09 de setembro de 2010.
“Ora, trazemos esse tesouro em vasos de barro para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós mesmos. Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia...” (2Cor 4,7-8a).

Irmã Maria José da Silva, Léia Aparecida de Paula, leiga missionária, e padre Nilson José dos Santos, à Igreja de Barra do Piraí – Volta Redonda: para vós fortaleza e paz da parte de Deus Pai, do Servo-Senhor Jesus Cristo e do Espírito de Amor.
Os muitos desafios, as muitas angústias e decepções, também as esperanças e alegrias colhidas em nossa missão no Acre nos ensinam a “não confiar em nós mesmos, mas a confiar somente em Deus que ressuscitou dos mortos” (2Cor 1,9). O tempo que parece passar devagar e o “ritmo da canoa”, que caracteriza a ação pastoral, permitem uma maior contemplação, favorece um maior conhecimento de si, o reconhecimento de nossas qualidades e limites, exigem paciência e fortaleza. O isolamento, a longas distâncias, as muitas carências e angústias, a coragem de enfrentar o sentimento de inadequação e impotência diante da pequena e frágil resposta que obtemos com o nosso trabalho, são provações que apelam para uma maior conformação ao Senhor, no mistério da sua encarnação, da vida escondida e humilde em Nazaré, dos exigentes caminhos da Galiléia, da doação na dureza da cruz, e do êxito, ainda que na esperança, da ressurreição. Quando mais nos sentimos fracos, mais somos impelidos à confiança no poder de Deus, que é capaz de fazer crescer o pouco que plantamos e começamos a regar.
Não poucas vezes somos tomados por um sentimento de perplexidade diante do que consideramos frieza, indiferença e passividade e comodismo dos irmãos na fé, diante da proposta de vida comunitária de comunhão e participação que julgamos oferecer. Torna-se muito difícil a mudança de mentalidade religiosa forjada pelo “esquema de desobriga”, onde se aguarda simplesmente a chegada do padre duas ou três por ano para ministrar os sacramentos do Batismo e da Eucaristia, para a reza do terço e básico catecismo. Mais uma vez, no mês de junho, Frei Paolino, esteve aqui para a desobriga. A prática é a de sempre: Não tomou conhecimento do nosso trabalho, visitou algumas famílias, consultou cerca de quarenta pessoas, saiu com carro de som convidando para as missas; celebrou três Eucaristias (duas com pouca participação e há terceira muito freqüentada, inclusive pelos políticos que normalmente não participam das celebrações das comunidades); fez acontecer um arraial de Santo Antônio, em que ele mesmo cantou o leilão impondo os lances para as pessoas. No retorno a Sena Madureira, fazendo a desobriga pelas comunidades ribeirinhas e aldeias, Frei Paolino enfrentou o perigo do barco que furou ao topar com um banco de areia. O prefeito de Santa Rosa foi prestar socorro ao frei, que graças a Deus, nada sofreu. O barco foi consertado e pode prosseguir a desobriga.
Surge então o questionamento se os católicos de Santa Rosa do Purus esperam algo mais do que a “desobriga do Frei Paolino”. Temos a impressão de que a nossa presença é compreendia no esquema do paternalismo, do costume de somente receber e ser “mandado”, do pouco expor o que pensa com medo de se comprometer ou de receber “carão”; do dizer “sim” quando a prática será “não”.
Contudo, julgamos que o Senhor nos permite tentar semear, com ardor e criatividade, motivando o surgimento de novos ministérios e serviços, diversificando as atividades pastorais e participando da vida da sociedade.
Na Catequese: desenvolvemos o encontro de planejamento do ano, convidamos mais cinco jovens para serem catequistas, realizamos visitas às famílias, encontros de oração e dinâmicas com pais e catequizandos; a entrega dos símbolos (cruz, Bíblia, Credo e Pai nosso) e retiro em preparação para a Primeira Eucaristia; celebração e confraternização nas festas de Pentecostes e da Padroeira Santa Rosa de Lima; formação de um grupo de catequese com adolescentes e jovens, na comunidade São Francisco.
No grupo da Infância e Adolescência Missionária: tentamos formar dois grupos (um com as crianças e outro, com os adolescentes); visita as pessoas enlutadas e a um casal de idosos (homenagem no dia dos avôs), missão de felicitação aos pais e convite para participarem do Encontro das Famílias; coroação de Nossa Senhora no encerramento do mês de maio, encontro de entrosamento com outras crianças e adolescentes na comunidade São Francisco e a celebração do segundo aniversário do grupo, retiro para os adolescentes membros da coordenação.
Na Liturgia: Preparação das missas e formação de equipes litúrgicas para atuarem nas duas comunidades; melhor preparação da Celebração da Palavra (na ausência do padre); mais pessoas participando da equipe de cânticos. Melhor organização da Semana Santa com Via-Sacra pelas ruas e encenação da Paixão e Ressurreição, confecção do tapete na festa de Corpus Christi; preparação do Batismo de crianças com visita às famílias; confraternização através do café da manhã após as missas do dia das mães e dos pais; novena da festa da Padroeira e acompanhamento orante dos velórios.
Outras conquistas: Realizamos mais uma viagem de voadeira para visita as comunidades ribeirinhas e algumas aldeias (16 a 20 de março); a implantação da Pastoral do Dízimo (maior motivação, visitas aos novos dizimistas, sorteio mensal de uma Bíblia); visita aos doentes com momento de oração; construção de banheiros na comunidade Santa Rosa e de um varandão em nossa residência para guardar a voadeira; instalação hidráulica e de ventiladores na comunidade São Francisco; aquisição de filtros para as duas comunidades. Conseguimos realizar o IV Encontro das Famílias com Cristo, na escola de Ensino Médio, encerrando a Semana Nacional da Família. O nosso apoio a um grupo de adolescentes para organizarem duas barracas, uma de diversão e a outra de bolo, na festa junina de uma escola, motivou a elaboração do “projeto jovens cooperados”, que obteve recursos do Fundo de Solidariedade da Diocese de Rio Branco. A participação da Léia no concurso de calouros promovido pela prefeitura, com a conquista do primeiro lugar. A presença do padre Nilson na Catedral de Rio Branco (06 de junho a 20 de julho) foi muito positiva para um melhor conhecimento da Diocese e efetivação do Projeto Igrejas-Irmãs. O maior entrosamento com os padres da Diocese de Rio Branco através do encontro de formação (após a Páscoa) e do retiro espiritual (julho) e com as Religiosas, no retiro orientado por padre Bruno (jesuíta, de Manaus), com a participação da Irmã Maria José e Léia. A continuidade das aulas de violão (duas turmas). Alguns jovens estão se reunindo, no final de semana, na praia, para um momento de oração, leitura e meditação da Palavra de Deus e jogo de vôlei.
A novena da Padroeira, marcada por muitos símbolos, com Missas, Ofício Divino e Adoração do Santíssimo, contou com a participação de poucos fiéis. Também os três dias de arraial exigiram muito trabalho nosso, diante do pequeno número de pessoas dispostas a colaborarem. Cuidamos da limpeza da igreja, da preparação dos bolos e salgados e, sozinhos, tivemos que desmontar as barracas. O mais positivo foi o envolvimento de alguns adolescentes que organizaram duas barracas de diversão. A festa foi prejudicada pelo longo período de estiagem: com pouca água no rio, temos dificuldades de abastecimento de mercadorias, inclusive gás e gasolina. Irmã Maria José chegou a construir um fogão à lenha para economizar gás.
Contudo, temos muitas dificuldades para motivar as poucas lideranças para a importância da formação e para a participação nas reuniões do conselho comunitário. A experiência da Escola de Formação Básica para discípulos missionários não foi avante e as catequistas não se dedicam à preparação dos encontros. Poucas crianças freqüentam a Catequese, apesar dos insistentes convites.
Nossa horta traduz simbolicamente nossa experiência missionária: despendemos muito empenho para semear, cuidar e regar, mas o resultado é pequeno. Conseguimos colher pepino, aipim, tomate, rúcula, couve, mostarda, mamão, um pouco de alface, mesmo com poucos recursos e com a terra muito fraca. Continuamos a criar também alguns frangos e galinhas e obter poucos ovos.
Já temos passagem de volta marcada para o dia 04 de fevereiro de 2011. Rogamos a Deus para que o nosso Projeto Igrejas-Irmãs tenha continuidade com outra equipe. Seria um grande pecado abandonar esse povo, relegando-o novamente à superada e insuficiente experiência da desobriga. Deus dará o crescimento ao que semeamos, mais espera que outros continuem semeando e regando com coragem e criatividade. Apelamos para que orem em favor dessa missão e para que outras pessoas, dóceis a ação do Espírito Santo, também percebam, do “ventre da terra, o grito que vem da Amazônia”.
